Desatinos

O Desatino do nome vem balancear o Tino que nós, em geral, somos obrigados a ter em nosso trabalho, em nossos compromissos, enfim, em nossa vida. Convidamos quem quiser, que venha desatinar conosco, dando palpites e sugestões, acompanhando-nos em nossos desatinos pela vida. A vida é uma eterna encruzilhada entre o tino e o desatino, as vezes agente tem que fazer tal qual a moça da música do Chico Buarque:

Ela desatinou, viu chegar quarta-feira
Acabar brincadeira, bandeiras se desmanchando
E ela inda está sambando ...

domingo, 20 de dezembro de 2009

Dia 16 dez 2009
Na noite anterior, bebemos e conversamos até a madrugada, risadas regadas a vinho, bacalhau e historias portuguesas de nossos amigos Douglas e Jussara, de madrugada a temperatura chegou a dois graus negativos daí pode-se imaginar a dificuldade que tivemos para acordar.

Decidimos viajar de carro para pequenas freguesias (vilarejos), e a trilha sonora escolhida não podia ser diferente, CDs de guitarras portuguesas. O cenário se transformando à medida que deixávamos Aveiro e caminhávamos para as antigas aldeias. A vegetação às margens da estrada vicinal apresentava uma textura singular: árvores vermelhas, amarelas, algumas secas outras com folhas a voar. Somente ao deparamos com uma cachoeira congelada na estrada pudemos imaginar que a temperatura fora do carro estaria próxima à 10 graus negativos. Para “brazucas”, é inevitável a ansiedade de ver neve....Subimos a Serra da Estrela com muita neblina e um cenário inesquecível: pedras e vegetação rasteira se intercalavam com as tais arvores vermelhas e outras completamente desfolhadas... uma visão cinematográfica. Paramos em Torres, o ponto mais alto de Portugal, debaixo de muita neve (enfim a encontramos) e neblina, o tempo entre sairmos do carro e o centro comercial turístico foi suficiente para deixar-nos congelados. Comemos queijo de cabra e tomamos algo para esquentar o corpo. Voltamos à estrada dirigindo a 20 km por hora devido a baixíssima visibilidade.




As cidades de Vizeu, Covilhã e Guarda foram um aquecimento antes de chegarmos ao ponto alto do passeio: Monsanto, ou Mons Sanctus em romano, que foram os colonizadores do local. Monsanto fica a 760 metros de altitude e detém uma posição estratégica de defesa, é considerada a aldeia mais portuguesa de Portugal, pois nunca foi dominada por outro povo.
Estando lá é difícil não se imaginar na era medieval, pois todas as casas são construídas com pedras, ou melhor granito da própria região. Algumas casas estão incrustadas nos grandes rochedos se adaptando de forma harmônica á natureza. Lá, literalmente, resta pedra sobre pedra. A população vive ainda hoje da mesma maneira que seus tatatatataravós... as ladeiras, também de granito acinzentados, conferiam ao local uma sensação de viagem no tempo. O frio intenso deixou-nos quase que sozinhos a caminhar pelas ruas, e os poucos habitantes não se arriscavam a colocar o nariz para fora de suas casas. Quando o tremor dos ossos ficou maior que a vontade de explorar os monumentos de pedra, decidimos entrar num restaurante local. No seu interior aquecido, similar a uma taberna, pudemos comer alguns pratos típicos da região como lula regada a azeite bruto e burrego assado. Nas paredes de pedra estavam registradas muitas impressões de pessoas importantes sobre Monsanto. Saramago disse “De pedra julgava o viajante saber tudo, não o digas quem nunca esteve em Monsanto”
O bom vinho da casa, em jarra, e uma sopa de legumes foram a entrada que nos permitiu chegar a temperatura normal novamente. Ao experimentarmos os pratos, a Dani disse ter descobrido que não poderia mais dizer que gosta de algum coisa antes de experimentar pois tudo aqui tem sabor totalmente diferente de tudo que já experimentei. Adorei a Lula, o carneiro, o vinho, enfim tudo... realmente um almoço inesquecível... Para completar, um passeio pelo banheiro do restaurante nos mostrou uma monumental pedra que servia de parede revelou uma harmoniosa coexistência entre forma e função. Foi difícil deixar aquele local mágico e quente, mas saciados, queríamos voltar à exploração.
A fria e fina chuva que caia deixava o piso escorregadio e tivemos de ser cautelosos em nosso derradeiro tour pela aldeia. Uma visita rápida às ruínas do Castelo e nos despedimos da era medieval.
Em clima de despedida, terminamos a noite com uma bela sopa quente na casa de nossos anfitriões.

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